Victoria Beckham: Agora que sua grife secundária, a Victoria, Victoria Beckham, opera numa arena mais casual, para o outono/inverno a estilista se permitiu investir nas silhuetas fragmentadas com que começou. Além de uma seleção de casacos belíssimos, o desfile apresentou apenas vestidos _ e apesar de a estilista falar em versatilidade, a coleção parecia mais adequada para as mulheres com corpos semelhantes ao seu, pois os modelos se colavam a cada curva graças às linhas inspiradas na ampulheta. A novidade foi na mistura de tecidos _ às vezes, em um mesmo tom com texturas diferentes _ e nos detalhes, tirados de suas bolsas.
O visual de Victoria é, sem dúvida, feminino, embora os temas militar e do beisebol tenham dado a ele certo "clima de rua". "Tenho tantos meninos em casa que vivo e respiro esportes", confessou Victoria durante uma prévia. O grande destaque foi um vestido verde-oliva, reto, com detalhes em preto no corpete e nas mangas. Outros tinham cortes nas costas, cujo vazio foi preenchido com faixas; os vestidos pretos de saia godê _ única alternativa às justas e retas _ tinham cintos pretos elegantes e golas de couro.
Tão impressionante quanto a coleção foi a jogada esperta de logística de Victoria, fazendo o desfile com apenas 22 looks, optando por deixar a seleção de vestidos de noite no showroom. "Decidimos manter tudo bem enxuto", disse Victoria. Nada de mais ou de menos, cada coisa no seu lugar.
Miguel Adrover: Mais ou menos na metade do desfile de Miguel Adrover, as modelos começaram a abrir as bolsas e jogar dinheiro para o alto. Um gesto clichê, talvez, mas que reflete muito bem a repulsa de Adrover ao sistema da moda e ao mundo do luxo ao qual está voltando esta temporada, depois de fechar as portas em 2004 e ressurgir três anos depois com a grife ecológica Hessnatur. Com uma coleção forte, o estilista provou que não perdeu sua irreverência calculada. Antes do desfile, disse que pretendia esquecer todas as referências da moda _ e para isso, aproveitou tecidos, tapetes, lençóis, roupas velhas e outras coisas que tinha em casa, em Majorca, para fazer camadas, drapear e costurar à mão e obter novos visuais. Ele transformou um casaco de couro de Alexander McQueen, amigo e mentor, num vestido; uma regata canelada fez par com uma saia feita de uma toalha egípcia com motivos faraônicos. Apareceram também diversas nuances sociais e políticas: num vestido, ele combinou as bandeiras norte-americana e cubana; em outro, em referência ao seu próprio interesse na cultura islâmica, ele transformou duas burcas em blusas. Nada exatamente comercial, mas, mesmo assim, feito para uma experiência de observação intensa, mesmo que tenha deixado uma pergunta crucial no ar para o público: agora que reciclou praticamente todos os seus pertences, o que vai fazer na próxima temporada? Vamos aguardar os próximos capítulos.
Alexander Wang: A coleção outono/inverno de Alexander Wang estava sensacional… pelo menos é o que parecia. Difícil ver alguma coisa direito porque o cenário estava pessimamente iluminado. Será mesmo que uns watts a mais iam cortar o clima? Não, mas uma pequena dose de confusão não deixou de ser intencional. Wang continuou a usar a ilusão inteligente do trompe l'oeil da pré-coleção ao adotar, segundo o que disse antes do desfile, "uma atitude surreal em relação à manipulação dos tecidos. A ideia é uma percepção distorcida de coisas que as pessoas veem como capas de chuva, mas que, na verdade, são tweeds laminados".
Esse conceito foi reforçado por um pano de fundo nebuloso, com espelhos cúbicos, para destacar seus looks de sportswear _ já que agora o estilista pode desenvolver sozinho praticamente 90 por cento dos materiais que utiliza em suas coleções, factoide que o estilista fez questão de alardear nos bastidores. Um sem-fim de tratamentos brilhantes foi aplicado à limitada paleta de cores _ branco, preto e uma pincelada de vermelho queimado _ além de aumentar a tensão estilística. Tweeds de lã merino laqueados, pelicas enceradas e tricôs envolvidos em jacquard foram arranjados numa silhueta gráfica, definida e ousada, principalmente no outerwear. O primeiro look foi uma capa de tweed laqueada branca, quadrada, com um capacete redondo servindo como capuz. Sob ela, uma blusa de gola alta, de rede arrastão, que cobria a boca da modelo _ esse foi um detalhe que se repetiu várias vezes. De fato, o clima de "agressividade chique" lembrava (mas sem imitar) o Helmut Lang do início dos anos 90. Embora o radical seja parte inerente da obra de Wang, ele resvalou uma ou duas vezes no minimalismo burguês ao exibir, por exemplo, o suéter brilhante de gola careca usado com uma saia longa e reta de couro sobreposta na frente, criando uma fenda generosa.
No rodapé da nota do desfile, que terminava no look 31, havia a instrução: "Por favor, permaneçam sentados". Muita gente apostava num espetáculo ao vivo, mas depois que as modelos fizeram os movimentos finais, as luzes mudaram e surgiram membros da elite mais madura (com o perdão do termo) de modelos, incluindo Shalom Harlow, Karolina Kurkova e Gisele Bündchen. Os looks que elas usaram eram muito semelhantes ao estilo do 31 anterior, mas com menos brilho, mais refinamento e um corte melhor, talvez para mostrar a verdadeira convicção de Wang que, por mais descoladas que sejam, suas roupas são divididas, sim, em categorias. Depois de uma volta, cada garota assumiu seu lugar em frente de um dos espelhos. Top models se olhando no espelho... deve haver alguma mensagem surreal aí.
Edun: Sharon Wauchob disse que queria se inspirar na "energia de uma menina que acaba de voltar de férias" que, motivada pelas novas experiências, cria seu look em combinações ecléticas. O resultado? Um visual descolado e mundano coroado por um estilo urbano. Para executá-lo, a estilista lançou mão das camadas _ como casacos estruturados e coletes tipo gilet em lã e couro com agasalhos feitos em seda ou vestidos numa discreta estampa de zebra. Calças largas de couro lembravam sutilmente os anos 80 e ficaram ótimas com os tops de estampas abstratas e tricôs metálicos. Com o outerwear muito forte, Sharon ofereceu inúmeras opções, incluindo uma parca de lã dupla-face bem macia. Sem dúvida, uma coleção que solidificou ainda mais a marca, garantindo que será objeto de desejo de um público que vai muito além de seus fãs boêmios.
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